sábado, 7 de abril de 2018

LAMARTINE COM ARTIGO ESPECIAL PARA O SAUDE PELA PRÁTICA

Artigo exclusivo ao SAUDE PELA PRÁTICA:


 Diante do anúncio pelo COMITÊ OLIMPICO DO BRASIL -COB, que não sabia, onde colocar o acervo dos JOGOS OLIMPICOS DO RIO DE JANEIRO, realizado em 2016, registramos com muita dor, pois somos olímpicos e, recorremos ao TIME LAMARTINE, pois conheço o trabalho desse MESTRE querido, sendo a maior autoridade nacional e uma das maiores do mundo sobre assuntos olímpicos e solicitamos a ele uma manifestação e ela, para a nossa honra, chegou agora, no momento em que o BRASIL tem a prisão de um EX-PRESIDENTE LULA, e na ânsia de fazer chegar á comunidade, porque está sendo veiculado com texto de qualidade, de quem realmente conhece. Já estamos transcrevendo em nosso site SAÚDE PELA PRÁTICA
FELIZ E HONRADO, pelos nossos leitores, segue o seu artigo.
OBRIGADO MAIS UMA VEZ LAMARTINE.
(CLERY - EDITOR)


VAMOS  SALVAR OU “ESQUECER” A MEMÓRIA DOS JOGOS OLÍMPICOS DE 2016?

Lamartine DaCosta,

Rio de Janeiro, RJ, 08/04/2016

Tenho sido solicitado a me manifestar sobre o acervo de informações dos Jogos Olímpicos 2016 como também sobre o projeto do Museu Olímpico, uma vez que havia – e ainda há – expectativas de ambos se tornarem  legados pós Olimpíadas do Rio de Janeiro. Também tomei conhecimento sobre o que tem circulado na mídia e nas redes sociais, com relação aos cinco mil volumes de documentos dos Jogos e ao projeto do Museu que não encontraram destino até agora, antecipando o risco de serem simplesmente deixados ao abandono.

               Diante dessas circunstâncias, importa alertar inicialmente que para aqueles familiarizados com as peculiaridades da cultura nacional, as heranças olímpicas do acervo 2016 e do museu sempre suscitaram a hipótese de tragédia anunciada. Isto porque o “esquecimento” da memória é um fato comum presente nas tradições  brasileiras, embora o país tenha historiadores de destaque e de engajamento sócio-cultural.

                   Não constitui surpresa, portanto, que tenha se tornado popular nos anos de 1970 o dito de Ivan Lessa – um dos intelectuais brilhantes do “Pasquim”  - de que "a cada 15 anos o brasileiro esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos". Esta pitada de ironia tem muitos fatos que a justificam no nosso dia-a-dia  porém é no âmbito do esporte e da educação física que ela ganha  frequentemente propriedade. Afinal, foi no Brasil que  houve o incrível “esquecimento” dos Jogos Olímpicos Sul-Americanos de 1922 –coincidentemente ocorridos no Rio de Janeiro –, o primeiro megaevento esportivo do país  que movimentou um público de 60% da população da cidade durante a sua realização com seis nações participantes.

                     E o que dizer sobre Centro Esportivo Virtual - CEV (Laércio Pereira et al.) com suas batalhas infindáveis nos dias presentes para preservar documentos e revelar acontecimentos “esquecidos” de valor históricos em sua área de atuação?  E se o exemplo do CEV não for suficiente podemos citar  a epopeia do Atlas do Esporte no Brasil de 2005 (ver página on-line do Conselho Federal de Educação Física -CONFEF) que teve mais quatro recriações nos Estados em anos posteriores (RS, SE, MA e Niterói-RJ), e que desencavou do desconhecimento informações e documentos em grande escala e por todo o país.

                     Em resumo, os exemplos do CEV e do Atlas são inspiradores – como o são hoje vários outros de menor visibilidade  atuantes no esporte brasileiro – gerando por conseguinte hipóteses de tratamento construtivo dos objetos de memória dos Jogos 2016.  Nestas condições me permito a fazer sugestões pessoais a partir do projeto gigante do Atlas do Esporte, iniciativa liderada pelo CONFEF e na qual atuei como gestor  entre 2003-2005.

                    Em primeiro lugar sugiro que se assuma a preservação da memória dos Jogos 2016 e de sua projeção museológica como dever cívico e não como “restos” de 2016 sujeitos a um jogo de empurra de responsabilidades entre instituições e gestores. É claro que neste caso todos nós brasileiros sabemos que há limitações para a preservação de memória desde que não tem valor de troca no mundo da política nacional; sabemos outrossim  que em nosso país arbitragens jurídicas para gerenciar os “restos” olímpicos e identificar responsáveis correm o risco de se alongarem por décadas sem resultados práticos.

                 Ou seja: se a direção renovada do Comitê Olímpico do Brasil-COB – aparentemente sendo ele o receptor final dos “restos” no jogo de empurra já em andamento - resolver assumir atitudes cívicas pondo nas devidas proporções os exageros de marketing e de vantagens comerciais que dominaram a administração anterior, então ter-se-á lugar um passo simples mas fundamental para a solução realista do problema.

                  Em segundo lugar, ainda na perspectiva do civismo, sugiro que o novo COB torne-se um efetivo promotor dos valores olímpicos, seja por dever de ofício (ver “Carta Olímpica”) ou por dar sentido adequado à sua renovação a fim de atender a atual “Agenda Olímpica 2020” (ver Youtube), também do COI, que busca associar valores tradicionais do Movimento Olímpico às demandas atualizadas das sociedades e culturas locais. Nesta visão de empreendedorismo e inovação da Agenda 2020, presumo que o novo COB possa liderar, sem riscos de contaminação com legados tóxicos, tanto o Acervo como o Museu, por via da criação de um  movimento de voluntariado. Como tal, este dispositivo de baixo custo reuniria pessoas físicas e instituições que pudessem viabilizar e criar uma imagem pública dando sentido prático a uma gestão orientada por valores olímpicos e espírito esportivo.

              E antes que me acusem de sonhador por ver o esporte por lentes acadêmicas sem realismo prático ou político, apresso-me em dar conteúdo à minha proposta. Em resumo, a solução do voluntariado de pessoas e associativismo de entidades esportivas foi a solução tentada em 2003 no projeto do Atlas do Esporte no Brasil,  com liderança do CONFEF e sob minha responsabilidade gerencial e técnica. Em retrospecto, o projeto do Atlas abriu voluntariado para sua criação e recebeu mais de 500 adesões quando se previa 200, o que nos obrigou – eu e o corpo editorial, também formado por voluntários - a selecionar interessados em se tornarem autores de uma centena de capítulos planejados.

                   Ao final, três anos depois, a obra somava 410 autores voluntários e 300 capítulos, manejando cerca de três mil arquivos distribuídos em vários repositórios eletrônicos. Com o Acervo Atlas organizado partiu-se para a busca de adesões das instituições de esporte – antigo COB inclusive – para a as tarefas de editoração e impressão, surgindo finalmente um compartilhamento de despesas com 14 entidades do esporte e educação física nacionais.  

              Claro está que o Acervo e o Museu herdados dos Jogos de 2016, são diferentes do Atlas 2003-2005 em seus propósitos e necessidades operacionais, mas se tornarão muito próximos em termos de procedimentos e tecnologias, se a opção de voluntariado for levada em conta. Em outras palavras a metodologia usada no Atlas foi de fatiamento em módulos das operações, distribuindo-se as fatias em linhas de tempo e atribuindo  funções de acordo com as possibilidades de cada voluntário e, em estágios mais adiantados, a cada entidade com disponibilidade de recursos e meios de suporte.

              Este método – hoje mais recomendado por indução das  crises econômicas do país  - implica em progredir de acordo com as disponibilidades, geralmente oscilantes num ambiente de recursos escassos, e com apoio da informática para acompanhar e controlar tarefas. Como tal, há prolongamentos na duração das operações, por vezes surgindo imprevisibilidades, porém se trata da desvantagem advinda do uso do voluntariado com seus custos baixos ou mesmo nulos.

               Cogitando-se do lado positivo da modulação, a experiência do Atlas mostrou que a autonomia típica do  voluntariado – pessoas e entidades – mostrava-se então redefinida ou descoberta sucessivamente por cada fatia, o que afinal  apresentava resultados relevantes ou de modo surpreendente. Outra constatação foi a de que as mulheres – tanto autoras como editoras -  eram bem mais eficientes do que os homens no trato dos fatiamentos e nos arranjos de adaptação às disponibilidades de recursos e mão de obra no tempo e no espaço.

                Em contas finais cabe informar aos novos líderes do COB que os ímpetos de inovação e empreendedorismo do Atlas ressurgiram recentemente, por criação autônoma e mais avançada em termos de gestão, no projeto do eMuseu Nacional do Esporte. Esta entidade está atualmente em implementação no Velódromo do Parque Olímpico -RJ sob liderança de Bianca Gama Pena da UERJ e por meio de vários suportes iniciais da Autoridade de Governança do Legados Olímpico – AGLO.
                  Hoje o projeto do eMuseu está avançando por fatiamento e por fases incluindo mais de uma dezena de parcerias, cujos compartilhamentos apoiam-se em adaptações às  possibilidades operacionais e financeiras. Neste particular, e já me espelhando no eMuseu, sugiro finalmente que o novo COB lidere o salvamento do Acervo 2016  e do projeto do Museu Olímpico simplesmente dando partida a um projeto de voluntariado e modular,  de custos limitados à existência de disponibilidades financeiras. As etapas posteriores do projeto – não importando seus prazos alongados - dependerão naturalmente de sucessivas negociações em tempo e ritmo próprios. Também recomendo uma associação com o projeto do eMuseu do Parque Olímpico -RJ que poderia trazer vantagens para ambos empreendimentos.

                   De resto, permito-me trazer à atenção dos novos dirigentes do COB que há um espírito esportivo – às vezes emergindo como “olímpico” – latente no país em que pese os desvios de esquecimento do passado e as possíveis mazelas dos gestores dos Jogos 2016. Este espírito explicaria a sobrevivência do CEV, o voluntariado do Atlas e as atuais parcerias do eMuseu.

                    Diante desses exemplos, cabe perguntar finalmente, com a devida vênia e respeito: podemos admitir que o novo COB estaria perdendo uma boa oportunidade de sincronia com o espírito esportivo nacional  ao optar pelo “jogo de empurra” que hoje ameaça a memória olímpica 2016?

                      Ou será que estamos todos – nós esportistas brasileiros e o novo COB - diante mais uma vez de oportunidades que estão sendo compreendidas como problemas? Afinal, poderemos ou não, TODOS UNIDOS salvar a memória dos Jogos Olímpicos de 2016, convocando a participação relativa de cada um?

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